domingo, 10 de março de 2013

Espelho




Espelho

Cada vez que me olho no espelho, vejo ainda cravadas na minha face, as marcas deixadas na pele das mulheres de minha história. Vejo seus prantos, seus calos, duas dores, suas lutas. Posso ver nas minhas retinas, os caminhos percorridos pelas minhas avós aos prantos, cheias de esperança e espanto. Suas cestas vazias, suas sandálias furadas, seus pés rasgados.
Da minha boca percebo ecoarem ainda as palavras guardadas, jamais ditas por medo. E mais, as proferidas aos prantos e ira em resposta a desaforos, e logo engolidas a seco: por um tapa na cara ou um soco no olho.

Consigo enxergar mais ali, nos cantos da boca e dos olhos, as rugas que não vieram de sorrisos. As marcas profundas do excesso de siso e da falta de risos. E da ausência cortante de abraços e carinhos e flores. Dá para ver as cores que faltaram aos olhos encharcados de pavor e lágrimas. Dá para sentir o cheiro do sangue a escorrer-lhes pelos rostos pálidos e por entre os dedos trêmulos, sob seus olhares incrédulos. E o choro e o grito travados na garganta, quando já mais nada adianta.

Eu sou o que o espelho me desvela a cada olhadela. O que a vida já me segredou muito antes de ser menina assustada e tímida. E o que a morte ainda me permite, até que me torne mulher plena e sem limites. Eu vejo no espelho os desejos vãos de vestidos vermelhos, de amores sãos e de unhas pintadas de todas as Marias, Amélias, Anas, Camélias, Clarissas, Iracemas, Belas, Morenas, Claras que eu, um dia, já fui.

Eu sou aquelas que não puderam ser. As que não ousaram, as que o fizeram e fracassaram. Sou as que lutaram e perderam, e também as que sobreviveram. As que conseguiram e amargaram a solidão, o preconceito ou o desterro. Todas elas ainda estão em mim. Todas as suas chagas ainda doem e sangram em mim. E não há nisso nenhum mistério, destino ou sanha divina. Nisso está a essência da vida a que todos estamos presos: somos continuidade, ainda que transgressores. Ainda quando rompemos, em nós permanecemos.

AnaCris Martins

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