quinta-feira, 11 de abril de 2013

Direções (ou sentidos?)




Não tenho direção. Direção delimita e delimitar-me não me cabe. Não me permito. Se pudesse, criaria outra forma de localizar o tempo e o espaço. Não. Eliminaria o tempo e o espaço. Acho. Escorro, desvio, traço. Meu tempo é não sei. Não me encaixo onde não sinto. Se amo: é muito, é agora, é lugar. Se nada: é longe, é depois, é ar. Infinitudes.

- Sente o vento que vem dali? Ouviu as risadas? Sentiu esse cheiro? Delícia né?
- Dali de onde? Da esquerda? Do norte?
- Não sei. Dali ó (aponto com o dedo e meu corpo acompanha), que importa?
- risadas de quem?
- não sei. Mas são de crianças. E estão felizes. Sente?
- e esse cheiro de onde vem?
- também não sei. Mas é bom, não é?
Não me venha com direções. Dali vem um cheiro de grama, de mato. De lá, vem cheiro de ervas. Dali, daquele outro lado, de goiaba. De flor, de vento, de mar. De nada.

Se um dia partires, eu sempre te reconhecerei. Não importa por onde eu tenha andado contigo. Isso é o que ficará comigo: tuas palavras, teus olhares, teus gestos, as marcas deixadas no meu corpo, na minha história, na alma. Se me tocaste com gentileza ou me atiraste pedras. Se me quiseste febril e com vontade. Ou apenas pra levantar-te o moral.

Sou mutante espelho. As pessoas se afloram em mim, como são. E por isso – bem por isso - meu caminho nunca é reto. Só tenho desvios. Caminho só por onde tenho a poesia. Caminho só, por onde a poesia me traça. Caminho só por onde a poesia me traça desvios. Caminho por onde a poesia me traça. Só, tenho desvios.

AnaCris Martins

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