quarta-feira, 28 de outubro de 2009

VÍCIO NA FALA

“Para dizerem milho, dizem mio
Para melhor dizem mió
Para pior, pió
Para telha, dizem teia
Para telhado, dizem teiado
E vão fazendo telhados”.
“Vício na fala” (Oswald de Andrade)

Linguagem falada. Linguagem escrita. Linguagem e escrita “culta” ou “formal”. Linguagem e escrita “vulgar” ou “coloquial”. “Assim” se escreve, mas é “assado” que se fala. Ou se costuma falar.

Em Portugual, nossa pátria-mãe de língua, usa-se comumente o “i” e o “u” no lugar do “e” e do “o” ao falar, e isso não é considerado “errado”. Assim se fala, mas se escreve “assado”.
As mudanças nos idiomas, na linguagem, ao longo do tempo existem e há inúmeros exemplos, embora nossa língua nos pareça imutável. Ao que parece, ocorre em todos os idiomas, em maior ou menor grau. No Brasil, por termos uma língua madre e duas línguas (ou vários dialetos) de grande influência, e ainda sermos colonizados - e termos o péssimo hábito de continuar agindo como tal - emprestamos anda palavras e expressões estrangeiras (especialmente do inglês). Em português, o verbo "por" já foi "poener", tornou-se "poer" e então virou "por". Talvez ainda o vejamos ser “p”, apenas. A tendência das pessoas, ao falar, é simplificar a língua. Os americanos o fazem sem parcimônia e as expressões “truncadas” fazem parte do vocabulário e tem suas regras ortográficas.
Com o tempo, passa-se a simplificação para escrita e ela vira “formal” ou “culta”. Errado? Sinal de ignorância? Falta de “cultura”? Vale lembrar que o termo cultura é empregado vulgarmente, com aprovação formal, como instrução, conhecimento, escolaridade. Mas cultura é, acima de tudo, o que um povo produz com base nas suas vivências, em termos de regras, costumes, moral, artes, instituições. Isso inclui o idioma. Querendo ou não, nosso idioma, nossa língua não começou sendo escrita, mas falada. A escrita é um instrumento de perpetuação, mas do que de disseminação, do idioma falado e, em conseqüência, da cultura. Não é um resultado ou um aspecto dela. O idioma o é. Ele é a base da escrita e não o oposto. A escrita tornou-se uma (arbitrária) bem sucedida forma de exercer o poder. Sobre outros povos (muitos sem escrita) ou sobre outras pessoas (que não sabem ler, ou não dominam o tal instrumento).
Quem sabe ler, sabe mais que muitos e assim, pode dominar, ou pelo menos safar-se de ser dominado. Ou melhor, de ser enganado. A palavra, com a escrita, perde o poder (e o valor). O chamado “preto no branco”, MUITOS NÃO ENTENDEM, VALE MAIS QUE QUALQUER PALAVRA.
Quem não domina esse instrumento – não sabe ler e escrever - depende de outros até para chegar em algum lugar: tomar um ônibus, trem, saber o caminho certo, o que está escrito numa placa. Quem sabe ler e escrever consegue os “melhores” empregos, pode inserir-se nas “melhores” profissões, nos “melhores” cargos.
Quem tem um diploma, nem se fala. Ou melhor, fala e escreve. E dita o que é certo e aceito na escrita e em todas as esferas da vida. Até na cultura. Determina o que é belo e bom, musicalmente, literariamente, e até onde a escrita não é usada.
Os que dizem “mio”, “mió”, “pió”, “teia”, “teiado”, vão fazendo telhados porque hoje a escrita tem mais valor e dita mais que a linguagem, que a fala. E quem escreve classifica a linguagem e dita as normas dela.

Há certos vícios de linguagem que são amplamente aceitos e nem por isso foram incorporados à linguagem escrita. Eu posso “dizê”, que vou “fazê” alguma coisa. E isso não é considerado “errado”. Apenas jeito de falar (vício na fala?). Eu posso “dizê” “isquizofrênico”, mas tenho que “iscrevê” esquizofrênico. E quando a gente tenta declamar um poema ou ler um texto em voz alta, pronunciando corretamente (?) as palavras, com seus “e”s, “r”s, "o”s, fica ridículo, ninguém duvida. Mas a gente tem que “iscrevê” certo, né?

Também fico chocada com a forma como os jovens escrevem hoje, especialmente depois da popularização da internet, massacrando, assassinando a “nossa” - MAS NÃO DE TODOS! - língua portuguesa.
Mas... será que a língua portuguesa já não foi assassinada, pelo menos no Brasil, há muito tempo? Os próprios portugueses dizem que não falamos português. Que nossa língua é o brasileiro, assim como em Cabo Verde se fala cabo-verdiano. Nossa língua é algo que mistura o português com os dialetos africanos e indígenas. E a insistência em dizer e obrigar-nos a escrever “português” exclui e marginaliza a grande maioria. Separa até regiões inteiras, onde, por falta de alfabetização, a linguagem falada ainda se sobrepõe, em presença, à escrita. Mas diante desta, já não tem valor.

É uma pena que as mudanças recentes tenham sido no sentido de unificar o que se acredita ser a Língua Portuguesa. Penso que as mudanças no idioma - aquelas que vêm do linguajar do povo, que nascem com o falar e não as quem vêm de fora, como as expressões em inglês, muitas vezes mais facilmente incorporadas ao idioma! - sejam logo incorporadas à escrita e à nossa língua e aceitas como linguagem, apenas. Só assim, vamos ver mais gente “iscrevê” e usar a escrita, como faz (e pode fazê!) com a fala. Sem vício na fala!

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